Painel da CasaCor debate como Paraisópolis e Campos Elíseos se tornam laboratórios de transformação social em São Paulo


O terceiro e último painel do 1º Fórum de Arquitetura e Urbanismo CasaCor tratou do tema “Transformação Social” e discutiu urbanismo, desenvolvimento integrado, mobilidade, educação e impacto econômico e social em territórios vulneráveis da cidade, com foco em Paraisópolis. A mediação foi conduzida novamente por Thaís Lauton, diretora de redação da revista Casa e Jardim e diretora de conteúdo da CasaCor, ao lado de Darlan Firmato, diretor de operações da CasaCor, que reuniram Pedro Fernandes, presidente da SP Urbanismo, arquiteto e urbanista com mestrado em Gestão e Políticas Públicas, e Fábio Silva, CEO da Rede Muda Mundo, reconhecida pela ONU como uma das principais plataformas de voluntariado do mundo.

Ao comentar o que Paraisópolis ensina a respeito de planejamento urbano inclusivo, Pedro Fernandes destacou que a comunidade já apresenta, de forma orgânica, características valorizadas pelo urbanismo contemporâneo. “Quando olhamos para a configuração de cidade que Paraisópolis apresenta, fica muito clara a vantagem de uma cidade compacta, com fachada ativa e ruas compartilhadas. As pessoas andam a pé e usam transporte coletivo de média capacidade. É uma vida muito intensa, e precisamos tirar proveito disso”, afirmou. Segundo ele, o desafio atual está em somar segurança, vegetação, conforto térmico e acústico e mais equipamentos públicos a essas qualidades já existentes. O urbanista explicou ainda a origem dos recursos que viabilizam a nova fase de intervenções na região: uma alteração aprovada por unanimidade em 2024 na lei da Operação Urbana Consorciada Faria Lima permitiu que recursos arrecadados com a venda de Certificados de Potencial Construtivo Adicional (Cepacs) na região fossem destinados a Paraisópolis. “Arrecadamos, no leilão do ano passado, quase R$ 1,7 bilhão, todos investidos em Paraisópolis, em intervenções conduzidas pelo prefeito. Temos perdido noites de sono, mas estamos muito entusiasmados com o projeto”, disse.

Fábio Silva, à frente da Rede Muda Mundo, apresentou o projeto Casa Zero, iniciativa que nasceu em Recife e agora chega a São Paulo, no bairro de Campos Elíseos. “Nossa atuação aqui em São Paulo tem sido no território de Campos Elíseos, nosso laboratório de desenvolvimento territorial”, explicou, relembrando a origem do projeto na Rua do Bom Jesus, no centro histórico de Recife, onde um casarão de seis mil metros quadrados foi transformado em espaço de capacitação, cultura e empreendedorismo. Segundo ele, a Casa Zero opera sobre três pilares: inclusão produtiva, economia criativa e cultura. “Os cursos que acontecem na Casa Zero não são realizados pela Rede Muda Mundo, e sim pelas empresas parceiras. Nosso papel é captar essas pessoas nas comunidades e oferecer a capacitação comportamental, enquanto as empresas entram com a atividade técnica”, disse. O empreendedor detalhou que a unidade de Recife, batizada de Casa Zero 81, deve qualificar sete mil pessoas de dezoito comunidades da cidade até o fim deste ano, e anunciou que a versão paulistana, a Casa Zero 11, tem inauguração prevista para novembro, na Avenida Rio Branco, em frente ao novo Palácio do Governo. “Fomos convidados pelo governador Tarcísio, pelo secretário Afif e pela secretária Andrezza de Desenvolvimento Social para construirmos, de forma colaborativa, a Casa Zero do centro histórico de São Paulo”, afirmou.

Sobre como preservar identidades locais durante processos de requalificação urbana, Pedro Fernandes destacou a importância do diálogo contínuo com moradores desde o início das intervenções em Paraisópolis, ainda na década de 2010. “A participação social é muito efetiva. É uma construção que começa desde as primeiras obras, resultado de uma relação muito sólida”, afirmou. Ele citou como referência o livro “O Filho da Mudança”, escrito pela liderança comunitária Gilson Rodrigues, e anunciou um dos principais equipamentos previstos no novo projeto para a região: o Centro de Oportunidades, espaço de cerca de seis mil metros quadrados junto ao Córrego Antonico. “É uma união importante entre o que antes era um símbolo de vulnerabilidade ambiental e social, o córrego, que passa a se transformar também num símbolo de recuperação ambiental, social e econômica”, disse. O urbanista mencionou ainda o Ballet de Paraisópolis como exemplo de iniciativa cultural local que receberá novo espaço construído com recursos da Operação Urbana Faria Lima. “A chave para que as pessoas permaneçam é construir um programa baseado na realidade concreta que elas mesmas espontaneamente construíram ao longo de décadas, e valorizar essas potencialidades”, resumiu.

Antes de detalhar as parcerias que sustentam o projeto Casa Zero, Fábio Silva apresentou um vídeo institucional sobre a iniciativa, que descreveu o esvaziamento populacional de centros urbanos como Recife e São Paulo e propôs a capacitação profissional como caminho de reocupação desses territórios. Na sequência, o empreendedor detalhou o modelo de articulação entre setores que sustenta o projeto. “Sinceramente, não acredito em heróis, acredito em mesas potentes”, afirmou. “É impossível fazer uma política pública sem a participação da gestão pública. É lá onde estão os números e as demandas.” Segundo ele, o modelo depende da soma entre poder público, iniciativa privada interessada no território e, sobretudo, a população local. “Não existe comunidade pobre. Existe comunidade que não utiliza seu recurso, seu talento, na própria comunidade. Quando Campos Elíseos tiver comércio forte, entretenimento, arte e cultura, as pessoas não vão sair de lá para consumir serviços em outro lugar. Esse dinheiro vai ser alocado ali, e a riqueza se volta para o próprio território”, disse.

Ao falar sobre a recepção do projeto pela comunidade de Campos Elíseos, Fábio descreveu um processo de aproximação construído ao longo de mais de um ano de presença no território. “Estamos escutando a população e construindo junto com ela o que é a Casa Zero. É reunião de condomínio toda hora, todo minuto, todo segundo. É a troca de afetos, é ganho de confiança”, relatou. “Os grandes protagonistas são as pessoas do território, nós somos mediadores. Não estamos construindo um projeto piramidal, e sim um projeto coletivo.” O empreendedor mencionou ainda o diálogo com empresas historicamente presentes na região, como a seguradora Porto Seguro, para reduzir tensões entre comunidade e setor privado.

Nas considerações finais, Pedro defendeu a necessidade de dar escala às intervenções bem-sucedidas. “Precisamos ter cada vez mais iniciativa. Esse diálogo do mercado imobiliário com as pessoas que moram em Paraisópolis é resultado de uma articulação muito concreta, que coloca todo mundo na mesa. Agora, precisamos ter a capacidade de ampliar esse tipo de intervenção”, afirmou, defendendo o protagonismo de lideranças sociais que surjam “de baixo para cima”, com apoio efetivo dos governos estadual, federal e municipal.

Fábio Silva encerrou o painel com um convite direto ao público e uma projeção de longo prazo para o projeto Casa Zero. “A médio e longo prazo, queremos construir em São Paulo uma vitrine para uma nova matriz social brasileira”, disse, lembrando sua origem em Recife, no Nordeste, região historicamente marcada pela desigualdade social. “Vamos abrir Casas Zero até 2035 em todas as capitais do Nordeste e do país. Já temos Recife como laboratório, e São Paulo é a vitrine”, afirmou. O empreendedor também anunciou a assinatura de uma nova unidade em João Pessoa, batizada de Casa Zero 83, e reforçou o convite para novas parcerias em torno da inauguração da unidade paulistana.

Ao encerrar o terceiro painel e o fórum, Thaís Lauton agradeceu a participação de todos os convidados ao longo do dia e reforçou o convite para que o público conheça mais as diferentes regiões da cidade. “Vamos conhecer mais nossa cidade, explorar mais o centro e todas as regiões periféricas, que também têm muito a ensinar”, disse, encerrando a primeira edição do Fórum de Arquitetura e Urbanismo CasaCor.

Confira fotos do evento!!





Fonte:Secovi

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